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| Vítor Fernandes |
Tinha apenas nove anos quando conheci Tarquínio Hall. Eu e os outros miúdos da aldeia, não teremos sido muito corretos para com o novo habitante vindo de África. Nesse tempo, usar calções, era para as crianças. Ver um homem de meia idade, baixa estatura, a fumar cachimbo e de calções era algo caricato para a nossa compreensão de crianças da aldeia. De uma aldeia inserida num país ainda cinzento, apesar de já se terem dado as primeiras pinceladas coloridas da liberdade. Fizemos troça, mas em segredo. Afinal era um doutor. Pelas pessoas mais velhas, era carinhosamente tratado por Quininho, ou não fosse ele filho do professor José João da Fonseca e de Dona Maria da Ressurreição Guilherme Hall. Graças à amizade criada entre a minha mãe e a esposa de Tarquínio Hall, Dona Dinora França, pude frequentar a sua casa. Fui descobrindo pouco a pouco a genialidade daquele homem sereno e afável. Na minha adolescência tinha uma inexplicável aversão à poesia. Salvaram-me do vazio dois livros autografados que ele me ofereceu. De repente, Bocage, Cesário Verde, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e o próprio Camões, vieram morar para a minha mesinha de cabeceira. Cheguei mesmo a tentar escrever poesia, mas depressa verifiquei que valia mais estar quieto.
Considero que Tarquínio Hall teve grande influência na minha vida. Falar dele é falar de um universo vasto e diversificado. O seu legado é demasiado rico para ser desprezado ou esquecido. Não falo de bens materiais, mas sim de cultura. Citando Tarquínio Hall, a cultura é a maior riqueza de um povo. É também a sua maior força, é a sua identidade e entra em decadência toda e qualquer sociedade que não invista em cultura. Isto mesmo me foi dito aqui nesta casa, numa tarde chuvosa em que o vim entrevistar para o Jornal Laje Grande de Meruge. Tarquínio Hall amava a sua terra como poucos. Amava Lagos da Beira e o seu concelho de forma pura e sem interesses de nenhuma ordem. Isto é extraordinário se pensarmos que a maior parte da sua vida foi passada na Ilha da Madeira, Moçambique e Angola. Habituado a uma intensa atividade jornalística em África, cedo procurou os jornais locais e os microfones da rádio com quem colaborou sempre com um único propósito: Divulgar a sua terra pelo que tinha de melhor. Fê-lo de forma soberba apoiado nos seus vastos conhecimentos, consultando especialistas ou investigando com rigor e método. Hoje sabemos que Lagos da Beira é uma povoação mais antiga que a nacionalidade. Sabemos que pertenceu à fidalga dinastia dos Freire de Andrade e à Casa do Infantado. Sabemos que teve Foral Manuelino em 1514. Sabemos que foi sede de um vasto concelho que englobava Póvoa das Quartas, Chamusca da Beira, Travanca, Andorinha, Negrelos, Percelada, Covas e Balocas. Sabemos da importância que a família Carvalho Monteiro teve em Lagos, no país e no mundo. Sabemos tudo isso graças a Tarquínio Hall, pelo seu trabalho e pelas portas que abriu e continua a abrir a outros investigadores. O conhecimento da nossa história faz-nos compreender aquilo que somos e para onde podemos caminhar, alimenta o nosso orgulho coletivo e reforça a nossa identidade como povo. Se este trabalho era importante, a sua faceta como poeta não é menos. A poesia é a arte da palavra. A palavra, manipulada pelos poetas, é a chave que abre a porta do mais complexo e misterioso dos universos. Não falo do universo para onde apontamos telescópios ou enviamos naves espaciais. Falo apenas e só do coração humano. Tarquínio Hall sabia manipular as palavras como poucos. A sua poesia celebra os mais nobres valores humanos, fala-nos do orgulho de ser português e é um hino às coisas belas da vida. Dos confins de África ao nosso Concelho, podemos viajar pelas belas palavras artisticamente conjugadas pela mão de Tarquínio Hall. Por vezes é também interventivo defendendo valores como a liberdade e a justiça social ou, graças à sua longa estadia em África, atacando o racismo e a xenofobia de forma contundente. O valor artístico da sua obra poética é inquestionável. A sua sensibilidade é elogiada, mesmo pelos mais ilustres poetas de um concelho bastante profícuo nessa área. O seu trabalho foi distinguido pelo município, sendo agraciado com a medalha de prata da cidade por serviços prestados à cultura e o seu nome foi dado a uma praceta da cidade de Oliveira do Hospital.
O último gesto de amor para com a sua terra, foi o desejo de que a sua casa fosse transformada em casa de cultura. No fundo era o desejo de que se desse continuidade ao espírito de missão com que encarava a cultura. O seu sonho foi materializado a três de julho de 2011, dia também importante para mim por diversos e bons motivos. Uma obra, que representou um enorme esforço financeiro para a junta de freguesia liderada na época por José António Guilherme, apresentava-se como uma porta aberta ao conhecimento e como mais um marco no roteiro turístico do concelho. Quis o destino que ficasse desempregado nesse mesmo ano e viesse para aqui trabalhar. A casa transformou-se num ponto de encontro e convívio da juventude de Lagos da Beira. A estatística mostrava uma média de trezentas pessoas por mês. A Biblioteca Museu era ponto de passagem obrigatória para caminhadas, passeios de carro, mota e bicicleta. Aqui realizei exposições de desenho, banda desenhada, antiguidades e fotografia. Os lagoenses espalhados pelo mundo, faziam questão de aqui vir trazendo os filhos para que eles conhecessem as suas raízes. Aqui recebi estudantes universitários em busca de informação para os seus trabalhos académicos. Aqui recebi investigadores de história em busca das raízes lagoenses de António Augusto Carvalho Monteiro. A partir daqui tracei um percurso turístico-cultural que passava pela igreja matriz, rua da Amargura, fonte de São João, antigo tribunal e capela de São Roque. Um percurso sem grandes monumentos, mas onde a História nos espreita a cada esquina. Aqui comecei um trabalho de interpretação da História da freguesia que fui publicando no blog da biblioteca, embora muito ainda falte estudar e publicar. Com a união das freguesias de Lagos e Lajeosa, passei a fazer aqui trabalho de secretaria e atendimento ao público. Num local central e bastante agradável, especialmente no verão, aliou-se a vertente cultural à utilidade de ter uma porta aberta ao povo. Apesar de opiniões contrárias vindas de pessoas que nunca subiram estas escadas, estou convicto de que a Biblioteca Museu Tarquínio Hall foi uma mais-valia para a freguesia e dignificou a memória da Tarquínio Hall. Prefiro não me pronunciar sobre a situação atual, mas sempre digo que é com imensa mágoa que vejo esta porta fechada.
Resta-me informar de que está online um blog para divulgar a obra de um dos mais ilustres lagoenses de sempre. O blog tem por titulo: Tarquínio Hall – Para que a memória não se apague.
Termino com uma frase de Tarquínio Hall que demonstra bem a sua nobreza de caráter.
“Nós que buscamos o conhecimento, temos o dever de dar do pouco que temos a quem ainda tenha menos”
Vítor Fernandes
Vítor Fernandes

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